Há pessoas que começam por deixar de sentir certos cheiros… sem imaginar que o corpo pode estar a tentar dizer algo mais profundo.

Há mudanças no corpo que quase ninguém leva muito a sério no início.
A visão fica um pouco mais cansada. A energia já não é exatamente a mesma. Certos alimentos parecem perder intensidade. E, aos poucos, alguns cheiros deixam de ser tão fáceis de identificar.
Muita gente atribui isso apenas ao envelhecimento. “É normal.” “Deve ser do nariz.” “Talvez seja alergia.”
E, em muitos casos, até pode ser.
Mas a ciência começou recentemente a olhar para esta questão com outra atenção. Alguns investigadores perguntam-se se a perda de olfato poderá, em determinadas pessoas, funcionar como um pequeno aviso silencioso de alterações mais profundas no organismo, incluindo alterações cardiovasculares.
À primeira vista parece uma ligação improvável.
O que terá o coração a ver com o nariz?
Mais do que parece.
Um estudo português publicado em 2025 veio precisamente explorar esta hipótese e encontrou associações interessantes entre perda de olfato, colesterol elevado e risco cardiovascular aumentado.
E talvez o mais curioso seja isto: o corpo humano raramente separa os problemas em “gavetas”. Muitas vezes, sistemas aparentemente distantes acabam ligados por mecanismos invisíveis do dia a dia.
O olfato é muito mais importante do que parece
Normalmente só valorizamos o olfato quando ele começa a desaparecer.
Até lá, funciona quase em piloto automático.
Reconhecemos o cheiro do café ainda antes do primeiro gole. Sentimos o perfume de alguém conhecido sem pensar nisso. O aroma do pão quente consegue despertar memórias inteiras em segundos.
O olfato não serve apenas para “cheirar coisas”.
Está profundamente ligado:
- às emoções;
- à memória;
- ao prazer alimentar;
- à perceção de segurança;
- à qualidade de vida.
Aliás, muitas pessoas que perdem parcialmente o olfato descrevem uma sensação difícil de explicar. Não é apenas o cheiro que desaparece. É como se parte da experiência do mundo ficasse mais distante.
A comida torna-se mais monótona.
Os sabores parecem “achatados”.
O prazer das refeições muda.
Até o humor pode ser afetado.
E existe outro detalhe menos falado.
O sistema olfativo depende de estruturas neurológicas e vasos sanguíneos extremamente delicados. Isso significa que alterações metabólicas, inflamatórias ou vasculares podem interferir com o seu funcionamento antes de surgirem sintomas mais óbvios noutros órgãos.
O estudo português que levantou novas perguntas

O trabalho analisou 119 pessoas com mais de 40 anos, comparando indivíduos com alterações do olfato e pessoas sem queixas olfativas.
Os investigadores avaliaram vários fatores:
- colesterol;
- tensão arterial;
- diabetes;
- índice de massa corporal;
- tabagismo;
- risco cardiovascular global;
- capacidade de identificação de cheiros.
Os participantes realizaram um teste específico chamado Burghart Sniffin’ Sticks, utilizado para avaliar a função olfativa.
Os resultados revelaram algo interessante.
As pessoas com perda de olfato apresentavam níveis médios de colesterol total mais elevados.
Além disso, quando os investigadores excluíram casos relacionados com problemas nasais locais, como sinusites ou doenças nasossinusais, surgiu uma associação significativa entre pior capacidade olfativa e maior risco cardiovascular global.
Ou seja: quanto maior o risco cardiovascular, pior tendia a ser o desempenho nos testes de olfato.
Não é uma prova absoluta de causa e efeito.
Mas também já não parece uma coincidência fácil de ignorar.
O que poderá explicar esta ligação?
O corpo funciona como uma rede.
Quando a circulação sanguínea começa lentamente a perder eficiência, os primeiros sinais podem surgir precisamente em estruturas mais sensíveis.
E o sistema olfativo é extremamente sensível.
Alguns investigadores acreditam que alterações vasculares pequenas, especialmente relacionadas com inflamação crónica e lesão endotelial, podem afetar o funcionamento neurológico ligado ao olfato.
É uma hipótese biologicamente plausível.
Imagine um jardim irrigado por canais muito finos.
Se a água começar lentamente a circular pior, as flores mais delicadas talvez sejam as primeiras a mostrar sinais.
O organismo humano, muitas vezes, comporta-se de forma semelhante.
O colesterol apareceu como um dos principais sinais

O dado mais consistente do estudo foi a relação entre perda de olfato e colesterol total elevado.
E isto merece atenção.
Porque o colesterol elevado raramente provoca sintomas imediatos.
Não dói.
Não avisa.
Não obriga a parar.
Durante anos, muitas pessoas vivem normalmente sem imaginar que alterações vasculares silenciosas já possam estar em desenvolvimento.
Talvez por isso seja tão fácil ignorar pequenos sinais aparentemente desconectados.
Quando alguém perde resistência física, dorme pior, sente mais fadiga e começa também a notar alterações no olfato, tende a olhar para cada sintoma isoladamente.
Mas o corpo raramente funciona por departamentos independentes.
A idade também influencia a perda de olfato
Os investigadores encontraram ainda uma associação clara entre envelhecimento e pior desempenho olfativo.
Isso já era esperado.
Com a idade:
- ocorre desgaste natural dos receptores sensoriais;
- a regeneração celular torna-se mais lenta;
- certas ligações neurológicas perdem eficiência.
No entanto, existe uma nuance importante.
Nem toda a gente envelhece da mesma forma.
Há pessoas de idade avançada com excelente capacidade olfativa e outras que começam a perder sensibilidade relativamente cedo.
Isto sugere que fatores como estilo de vida, saúde vascular, metabolismo e inflamação também podem influenciar o processo.
Envelhecer não depende apenas dos anos que passam. Depende também da forma como o organismo consegue adaptar-se ao desgaste acumulado.
A diabetes poderá ter um papel importante

O estudo observou ainda uma tendência para maior prevalência de diabetes nas pessoas com pior identificação de cheiros.
Embora os resultados não tenham sido suficientemente fortes para conclusões definitivas, outros estudos internacionais já tinham apontado na mesma direção.
E isso faz sentido biologicamente.
A diabetes pode afetar:
- vasos sanguíneos pequenos;
- nervos periféricos;
- microcirculação;
- estruturas neurológicas delicadas.
Tudo isto pode interferir na capacidade olfativa.
Aliás, algumas pessoas descrevem alterações subtis durante anos sem lhes dar importância:
- sabores diferentes;
- menor intensidade dos aromas;
- sensação de comida “sem graça”.
Às vezes, o organismo muda lentamente antes de surgir um sintoma evidente.
Nem toda a perda de olfato está ligada ao coração
Este ponto é fundamental.
Existem muitas causas possíveis para alterações olfativas:
- alergias;
- sinusite;
- pólipos nasais;
- infeções virais;
- envelhecimento;
- traumatismos;
- medicamentos;
- doenças neurológicas.
Durante a pandemia, por exemplo, milhões de pessoas perceberam como perder o olfato pode ser perturbador mesmo quando o resto parece relativamente normal.
Por isso, este tipo de investigação não deve gerar alarmismo.
O objetivo não é fazer alguém pensar automaticamente em doença cardiovascular sempre que sente alterações nos cheiros.
A ideia é outra.
Talvez o olfato seja apenas mais uma peça do puzzle global da saúde.
E talvez mereça um pouco mais de atenção do que tradicionalmente recebeu.
Os sinais silenciosos costumam ser os mais ignorados

Curiosamente, muitas doenças cardiovasculares desenvolvem-se de forma quase invisível durante anos.
A tensão arterial sobe lentamente.
O colesterol mantém-se elevado.
O sono piora.
O cansaço acumula-se.
A capacidade física muda discretamente.
Nada parece suficientemente grave para preocupar verdadeiramente.
Até que um dia o problema deixa de ser silencioso.
Talvez seja precisamente por isso que a medicina preventiva se torna cada vez mais importante. Não porque consiga prever tudo. Mas porque ajuda a interpretar pequenos sinais antes de surgirem consequências maiores.
E o olfato poderá vir a ser um desses sinais adicionais.
O que este estudo ainda não consegue responder
Os próprios investigadores foram prudentes nas conclusões.
O estudo apresenta várias limitações:
- número relativamente pequeno de participantes;
- natureza observacional;
- diferentes causas de perda olfativa;
- impossibilidade de provar causalidade direta.
Isto significa que os resultados sugerem associações, mas não demonstram que a perda de olfato cause problemas cardiovasculares ou vice-versa.
Ainda assim, existe um detalhe importante.
Quando vários estudos começam a apontar padrões semelhantes em diferentes populações, a ciência tende a aprofundar essas hipóteses.
E foi exatamente isso que começou a acontecer nesta área.
Conclusão
Durante muito tempo, a perda de olfato foi vista apenas como um incómodo sensorial.
Hoje começa lentamente a ganhar outro significado.
Talvez, em alguns casos, funcione como um reflexo silencioso do estado geral do organismo, especialmente da saúde vascular e metabólica.
Ainda existem muitas perguntas sem resposta.
Mas talvez a principal lição seja esta: o corpo raramente muda de um dia para o outro. Normalmente vai deixando pequenos sinais espalhados pelo caminho.
E aprender a ouvi-los pode fazer mais diferença do que imaginamos.
FAQ – Perguntas frequentes
A perda de olfato significa que tenho um problema cardíaco?
Não necessariamente. Existem muitas causas possíveis para alterações do olfato. O estudo apenas sugere uma possível associação em determinados casos.
O colesterol elevado pode afetar o olfato?
O estudo encontrou uma relação entre colesterol total elevado e pior capacidade olfativa. Ainda são necessários mais estudos para compreender exatamente essa ligação.
A idade influencia a perda de olfato?
Sim. O envelhecimento está frequentemente associado a diminuição gradual da função olfativa.
A diabetes pode alterar o olfato?
Pode. Alterações vasculares e neurológicas associadas à diabetes poderão influenciar a capacidade olfativa.
Devo procurar ajuda médica se notar alterações persistentes nos cheiros?
Sim. Alterações persistentes do olfato merecem avaliação médica para identificar possíveis causas.
Leia também: Nervo Vago e Coração: a terapia que começa na orelha
Base científica e fontes consultadas
- Sousa C, Guincho J, Baptista L et al. Olfato e risco cardiovascular: uma ligação ainda por explorar. Revista Portuguesa de Otorrinolaringologia – Cirurgia de Cabeça e Pescoço, 2025.
- European Society of Cardiology – Guidelines on cardiovascular disease prevention.
- Roh D et al. The association between olfactory dysfunction and cardiovascular disease and its risk factors in middle-aged and older adults. Scientific Reports, 2021.
- Chamberlin KW et al. Olfactory impairment and the risk of major adverse cardiovascular outcomes in older adults. Journal of the American Heart Association, 2024.
Nota importante: Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui avaliação médica, diagnóstico ou acompanhamento profissional individualizado.




